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A maternidade transforma vidas – Giselle & Guilherme

“A maternidade é algo que transforma as nossas vidas e nos mostra que um amor que transcende a nós mesmos. Meu nome é Giselle, tenho 41 anos, um marido parceiro e dois filhos lindos. Bernardo chegou em 2012. Foi uma gravidez esperada, que transcorreu sem problemas. Ele chegou num dia especial, dia do aniversário do Thiago, meu marido. Quando ele estava com 6 meses, descobrimos que estávamos grávidos novamente. Ficamos muito felizes porque queríamos aumentar a família. Infelizmente com 10 semanas de gestação tive um abortamento. Vivemos o luto da perda de um filho que nem chegamos a conhecer. Mas como Deus é grande, em abril de 2014 estávamos grávidos de novo. Nossa!!! Uma felicidade sem tamanho!

Com 5 semanas de gestação tive novamente um sangramento. Corri pra emergência. A suspeita era de gravidez anembrionária ou “ovo cego”. Teria que repetir a ultra em 1 semana pra confirmar o diagnóstico e, se confirmado, teria que aguardar abortar espontaneamente. Não resisti e refiz o exame antes do prazo, escondido da família. E lá estava o nosso bebê!! Só chorava, um choro de alegria de uma mãe que achava que tinha perdido seu bebê. Com 12 semanas, eu, Thiago e Bernardo fomos fazer a translucência nucal. Marcamos com Dr. Heron Werber. que também fez os exames do Bernardo. Grande médico, desses raros da gente conhecer. Com muito cuidado, ele nos informou que tinha algumas alterações. Sensível e profissional, disse que a chance maior era do nosso filho vir com Síndrome de Down. A chance era 1 para 16. Mas podia vir outras síndromes também. Nos explicou que podíamos avançar na investigação e fazer a amniocentese. Saímos de lá muito preocupados e decididos a fazer o exame. Foram dias difíceis. Muita duvida. Li muita coisa na internet procurando algo que dissesse que o exame estava errado. Mas, no fundo, eu sabia que era impossível. Dr. Heron mesmo faria nossa amniocentese. Tivemos dificuldade de marcar porque era época de Copa do Mundo. Bem, fizemos o exame e ficamos ansiosos com o resultado. Os dias passavam e nada.

Estava chegando o aniversário dos meus meninos, Thiago e Bernardo, e decidimos fazer um bolinho na escolinha do Bernardo e um outro só pra família. No dia 18 de julho, aniversário deles, estava almoçando num restaurante com minha mãe quando recebi a tão esperada ligação. Dr. Heron confirmou que o Guilherme chegaria com Síndrome de Down. Não consegui terminar o almoço. Fui para casa dela e fiquei dentro do carro. Chorei. Chorei muito. Mandei uma mensagem para o meu marido para vir do trabalho pra casa dela. Enquanto isso fiquei procurando informações sobre a Síndrome de Down. Li uma cartilha inteira sobre isso: “três vivas para o seu bebê”, do site do Movimento Down. E comecei a ver que a Síndrome de Down é muito mais do que as características físicas.

Ele chegou nervoso. Contei chorando o resultado do exame e daí foi o momento do mundo dele cair. Por incrível que pareça, nesse momento eu já estava bem melhor. Ficamos juntos tentando absorver tudo o que estava acontecendo. Fomos buscar o Bernardo na escola e qual foi minha surpresa quando contamos para a pedagoga da creche, Adriana Monteiro, que o Guilherme tem Síndrome de Down. Ela e a equipe da escola reagiram como se nós tivéssemos ganho na loteria. Me senti acolhida naquele momento.

Decidimos contar pra família naquele mesmo dia, na festinha de aniversário. E, a medida que encontrávamos nossos amigos fomos contando. Alguns ao vivo, outros pelo whatsapp. O fato de não esconder que o Guilherme viria com Down fez com que eu aceitasse mais rápido. As pessoas vinham até mim para contar histórias ótimas de quem elas conheciam com a mesma característica. Não escutei nenhuma história negativa. Continuei procurando mais informações sobre a Síndrome. E descobri coisas maravilhosas sobre inclusão, independência e amor. Mas nem todos reagem como a pedagoga. Quando você conta que tem um filho com Down, alguns te olham com pena, outros não sabem o que dizer, parecem pensar “porque com eles, são tão legais”.

E chegou o dia tão esperado. Dezessete de dezembro de 2014. Na 39a semana Guilherme chegou ao mundo com 3.475kg e 41cm, APGAR 9/10. Chegou tão esperto que ainda “mamou” no centro cirúrgico.

Guilherme
Guilherme

Enquanto esperava-o chegar no quarto, fui informada que ele apresentou um quadro respiratório, sendo levado para o CTI Neonatal. Fiquei sem entender nada. Durante a gestação não foi evidenciado nenhum problema cardíaco, que é bem comum em crianças com a síndrome.

De uma hora para outra virei mãe de CTI. E começou uma rotina diferente de tudo que imaginei. Gui estava lá, respirando com a ajuda de um aparelho chamado CPAP, na incubadora, recebendo alimentação por sonda. Não podia pegá-lo no colo, beijá-lo. Somente tocá-lo através da janelinha da incubadora, depois de lavar as mãos e passar álcool. Resguardo? O que é isso? Nós, mães de CTI, acordamos e vamos direto ficar em sentadas ou em pé ao lado dos nossos pimpolhos. De tempos em tempos vamos ao lactário fazer o que de melhor podemos fazer pelos nossos filhos.: extrair o leite materno. E ficamos torcendo para que saia qualquer ml. Ali todos são iguais. E é no lactário, nos corredores e na antessala do CTI que vamos conhecendo outras mães. O vínculo que fazemos é muito importante e pra sempre. Nesse momento tão difícil encontramos força para apoiar umas as outras, dar um sorriso, um ombro, um abraço, estar do lado.

Os médicos chegaram ao diagnóstico do Guilherme: hipertensão pulmonar. O tratamento é o CPAP e, no caso dele, antibiótico. Nada relacionado à Síndrome de Down.

Naquele ambiente de bebês tão graves havia uma serenidade incomum. Olhava para o lado e via outros pais conversando com a equipe de enfermagem, com as fisioterapeutas, com a psicóloga. Tudo num clima agradável. Todo dia ao chegar ia olhar se ele tinha ganho peso e se tinha mamado tudo na mamadeira. Guilherme não gostava da mamadeira, mas adorava (e adora!) mamar no peito da mamãe! Nos corredores, na sala de espera, na cantina tomando um cafezinho, acontecia a melhor terapia. A conversa entre os pais do CTI. Nossa, como me fizeram bem!

Foram dias difíceis e alguns acontecimentos me marcaram muito. Pegá-lo no colo pela primeira vez depois de dias olhando-o pela incubadora, levar o Bernardo para conhecer o irmãozinho e ver a carinha dele olhando o irmão, a primeira vez que amamentei o Guilherme. Outro dia inesquecível foi quando perdemos um dos nossos bebês. Talvez esse tenha sido o dia mais difícil lá dentro. Apesar de não ser o meu filho, no CTI dividimos tudo, inclusive as dores. Chorava a família, choravam as outras mães, chorava a equipe. E me peguei, nesse mesmo dia, chorando ao ver uma mãe do meu lado amamentando seu filho pela primeira vez depois de três meses de internação.

Depois de 23 dias de internação, Guilherme finalmente teve alta. Em casa, três dias depois, teve febre. Qual meu susto quando o pediatra me disse que teria que reinterná-lo para investigação. Não acreditei. Tudo de novo! E voltamos para o CTI. A febre era devido a uma infecção urinária. Teve alta hospitalar após 10 dias.

Hoje, meu filho está ótimo. Não teve mais nenhum problema de saúde. Já começou as estimulações precoces com uma fisioterapeuta e uma fonoaudióloga maravilhosas. Descobri que a Síndrome de Down é só mais uma característica dele. Guilherme é muito querido e muito sedutor! A vinda dele trouxe grandes mudanças positivas na minha vida e, nossa passagem pelo CTI fez com que eu e meu marido valorizássemos ainda mais as coisas importantes da vida.”

Giselle Frauches

Guilherme e sua família!
Guilherme e sua família!

3 thoughts on “A maternidade transforma vidas – Giselle & Guilherme

  1. Como não se emocionar como uma histórias dessas? Como não se encantar com essa criança? Impossível! Giselle, quando a gente lê o seu relato é como se estivesse exatamente no seu lugar. Consegui imaginar seus medos, seus dilemas, sua angústia, mas acima de tudo consegui sentir o grande amor que liga todos vocês. Que essa energia positiva contagie outras famílias. Um grande abraço! Gisa Hangai Blog Mãe bacana

  2. Gi, lindo o seu depoimento!!!

    Lembro do dia que o Thiago me contou do Gui. Passamos uma tarde conversando pelo skype. E uma das frases que disse a ele foi “Deus sabe o que faz”.

    Quando o Gui nasceu e foi para UTI, eu me perguntava o porque disso? Me sentia tão angustiada de não conseguir ajudar vocês! Com o tempo ele foi melhorando, e eu ansiosa, contando os dias para ele ir pra casa.

    O tempo passou e hoje ele está ótimo! Muito esperto!!!

    Como sua amiga Aracelli escreveu: “Filhos especias escolhem pais especiais”. O Gui soube escolher seus pais!

    Beijosss no coração de você!
    Mari

  3. Você se esqueceu de dizer que tem um sorriso contagiante, uma energia maravilhosa e é uma pessoa muito querida! : )
    Quando o Miguel foi transferido para a UTI Neo 2, eu pude me apaixonar à primeira vista pelo Gui. Eles ficaram frente a frente. Até então eu não tinha a oportunidade de encontrar com pais de um bebê com Down. Aí eu vi vc, com esse sorrisão. E percebi que eu havia achado uma mãe que veio ao mundo, assim como eu, com a missão de ser muito feliz, porque esses presentes nos fazem as pessoas mais felizes do mundo.
    O Gui tem orgulho demais de ter vcs como pais, e o Be crescerá vendo a família maravilhosa que formaram.
    “Filhos especiais escolhem pais especiais!”
    Obrigada por enfrentar junto a mim os momentos mais difíceis da minha vida. BJ no coração de vocês!
    Aracelli, mãe do anjinho Miguel.

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