Carregando...

Reprodução Assistida – Natasha

Depois do depoimento da Valéria e da Renata, hoje vamos conhecer a história da Natasha!

Reprodução assistida

“Bem, para falar do tratamento para engravidar eu tenho que voltar no tempo, antes mesmo de pensar em engravidar.
Casei aos 29 anos. Meu marido já tinha dois filhos do casamento anterior, e havia feito vasectomia. Quem pensa em ter filhos não casa com homem vasectomizado, certo? Certo. Era este o meu caso, não pensava em ter filhos, meu marido também não.
Fazendo o preventivo anual (importantíssimo) meu médico na época perguntou se eu queria engravidar. Falei que não. Ele foi bem taxativo – “você tem muitos miomas, o melhor tratamento é tirar o útero. Se você não quer ter filhos, podemos marcar a histerectomia.” Aí foi meio que ou dá, ou desce. Uma coisa é não ter filhos por opção. Outra coisa é nem ter esta opção. Conversamos, e decidimos que partiríamos para a gravidez. No nosso caso, o mais aconselhado era a FIV/ICSI porque, depois de mais de uma década de vasectomia, as chances de reversão eram mínimas.
À época, eu corria. Numa prova (Corrida do Trabalhador, 1º de maio de 2008) passei muito mal. Mas algo fora do comum. Se respirava, doía, se andava, doía, se pensava, doía. Estava com um tempo excelente, ia fechar os 5km em menos de 30 minutos, sai de lá direto pro serviço médico.
Quando cheguei em casa, um sangramento. Marquei médico para aquela mesma semana. Pra minha surpresa…OVULEI!!!! kkkk é raro, mas acontece de ter dor na ovulação. E isto não seria a primeira coisa rara a me acontecer. A gravidez foi cheia de altos e baixos.
A médica, indicada por algumas amigas, viu os miomas e me encaminhou para uma clínica de tratamento de fertilização. Fomos. O médico achou melhor fazer a retirada de um dos miomas antes de engravidar. Ficaram ainda uns 6 penduricalhos – outros miomas – no útero. E me aconselhou voltar dali a 6 meses para iniciar o tratamento.
O tratamento foi dividido em algumas etapas. A primeira, e mais importante, era ver se meu marido tinha espermatozóide. O espermograma estava zerado, a cirurgia foi MUITO bem feita. Foi realizada punção no epidídimo para que pudesse pegar os meninos na fonte. Ufa, meninos congelados… vamos para mim. Há vários protocolos para a ICSI, o que foi utilizado pra mim foi o seguinte: Usei anticoncepcional, suspendi o anticoncepcional, parti pras injeções da medicação para estimular a ovulação, depois outra medicação para liberação dos óvulos e captação.
Tive uma quantidade excelente de óvulos, 15. A captação é tranqüila. você fica grogue no dia, porque mesmo sendo um “whiskynho” que o médico te dá na veia, é um procedimentinho simples, mas procedimentinho que deve ser realizado em centro cirúrgico. A transferência dos embriões pode ser feita com 3 ou 5 dias, o médico optou por 3 dias. Nos chamou na sala, e disse que houve um problema com os espermatozóides, que a maioria morreu, e que só conseguiram vingar 5 embriões. Deles, nenhum era A ou B (eles classificam os embriões de 5 formas, sendo A mais viável – viabilidade mesmo, de viver – e E o inviável, nem fazem transferência do E). Dos 5, apenas 3 podiam ser transferidos, e eles eram C (meio termo).
Lembro que ele me mostrou um dos embriões e disse – “este está indo muito bem.” Pode parecer besteira, mas eu sabia que AQUELE embrião seria o bebê pra chamar de meu. Volta pro centro cirúrgico, olho na tela, transferência dos meus três bebes pra barriga. Mais 30 minutos de espera, e dali a 15 dias fazer o BetaHcg.
Todo este tempo meu marido ficou pedindo desculpas, mas a culpa NÃO era dele de os meninos terem passado frio e não terem sobrevivido. Ele não queria mesmo mais ter filhos, acabamos fazendo o tratamento só para que tivéssemos o nosso.
Tem gente que faz a transferência e vai esquiar. Eu optei por ficar mais quietinha, não pegar metrô, não pegar stress no trabalho. Estava com uns dias de crédito, tirei o resto da semana, emenda com sábado e domingo. Foram 5 dias fora da correria.
Dia 03 de junho de 2009 era o dia para fazer o Beta. Se não me falha a memória, uma terça-feira. Na sexta anterior, saímos para jantar. Consegui? NÃO!!!! O cheiro do cardápio estava me enjoando. Como tinha uma farmácia do lado, comprei o exame de gravidez. Xixizinho feito – POSITIVO!!!!!! Mas a ficha não caiu. Fiz um exame por dia até o dia 03 de junho de 2009. E a ficha não caiu. Dia 03 de junho, hora de ir ao laboratório. Colhe o sangue. Previsão de entrega – 14h00 do mesmo dia. A ansiedade bateu. MUITO. Acho que fiquei dando F5 no site do laboratório a cada segundo. Até que saiu. GRAVIDÍSSIMA!!!! Beta nas alturas!!!!!! Liguei pro marido (estávamos os dois no trabalho), liguei pra minha mãe, logo em seguida liga o médico. Pediu para NÃO avisar pra ninguém, que tratamento bem sucedido é com bebê nos braços saindo da maternidade, e só era pra anunciar pra todos depois de 12 semanas.
Naquela semana teve o feriado de Corpus Christi, fomos tomar café da manhã na padaria, do lado de casa. Quando levantei para sair, passei a mão na calça. SANGUE. VIVO, VIVÍSSIMO, escorrendo pelas pernas. Sensação horrível. Você não sabe se corre pra deitar, se corre calmamente pra deitar, se deita ali mesmo no chão e espera uma maca. Como era realmente muito perto de casa, fui orando pra conseguir chegar a tempo. Liga pro médico…NADA. Uma amiga tem uma das cunhadas obstetra, liguei pra ela, liguei pra obstetra, que pediu para fazer repouso e tomar Buscopam.
Uma dor horrorosa e nada de parar sangrar. Era uma quinta-feira, eu estava me contorcendo de dor na cama. A tarde, fui fazer xixi, tive outra dor daquelas, de repente a dor parou. Olho pro fundo da água – algo parecendo fígado de galinha. Sabia que ali tinha ido um dos meus bebês. Domingo a dor, o sangramento, tudo se repetiu pela manhã. À noite, quando fui tomar banho, olho pro chão.. outro trequinho parecendo fígado de galinha. Arrasada? Imagina.
Acho que nunca perturbei tanto Deus como durante a gravidez. Orava, chorava, já estava sem forças para ambos. Tinha na terça-feira ecografia para ver os sacos gestacionais. Por mais que se tenha fé, eu estava completamente abalada. Muito mesmo. Já entrei na sala chorando, o médico super calmo e positivo me examinou. Lembro dele falar – AÍ SEU BEBE, NEM AÍ PRO SEU SANGRAMENTO. Não, ainda não tinha bebê. Era só um saco gestacional, vesícula vitelínica, mas realmente não estava nem aí pro sangramento. Continuei aquela semana de repouso, porque ainda tinha um resquício de sangramento. Na semana seguinte – o melhor tum tum tum do mundo – embriãozinho, coração batendo.
O início da minha gravidez foi basicamente o repouso. Tive sangramento sem qualquer causa até a 16a semana. Todo domingo sangrava, todo domingo ia fazer ecografia, e graças a Deus, todo domingo estava tudo bem. Usei hormônio para segurar até 20 semanas. Tive suspeita de placenta previa, até que numa das ecografias – TCHARAM – um mioma surgiu do nada. Ele estava provocando os sangramentos. Eu acredito que a carga hormonal que tive para engravidar acabou acelerando o crescimento dele.
No segundo trimestre as coisas melhoraram, já não estava mais deitada eternamente em berço esplendido. Mas aí veio a pandemia de gripe suína!!! Saía fantasiada, com máscara no rosto. Cinema, shopping, nem pensar. Comprar as coisas só fora de horário de pico….mas foi o período mais tranqüilo da gravidez. Caminhava, fazia hidro, uma tranqüilidade.
No final do segundo trimestre, infelizmente, voltou a acender a luz amarela. Tinha ganho 5 kg em um mês, minha pressão que era sempre 8×6 chegou a 12×8. E estava com edema. Fiz o teste para ver proteinuria na urina, tudo ok. Entrei em crise de asma, fui ao pneumologista, toma medicação e felizmente voltei a respirar. Mas… estava no trabalho (pós pandemia), início de dezembro, e senti um zumbido horroroso. Liguei pra médica – “vá ao serviço médico”. A pressão estava 13×9. Pediu para ficar mais 1 horas no repouso. Nada de baixar. O jeito foi ir pra casa e voltar pro…REPOUSO! Refiz o exame, e não tinha dúvida – era pré-eclampsia. Leve, mas pré-eclampsia. Dali pra frente, a gravidez ficou animada de um jeito não muito bom. Tinha que contar os movimentos da minha filha na barriga, se fosse menos de 12 num dia, era para correr ao pronto socorro. Toda semana lá ia eu fazer ecografia. Estava com incisura em uma das artérias uterinas, minha filha parou de crescer, de ganhar peso, e ainda estávamos em 30 semanas. O jeito foi voltar para o repouso, e esperar a hora de nascer.
Com 34 semanas, tomei injeção para amadurecimento do pulmão. Deu uma melhorada no desenvolvimento dela, mas já não tinha muito o que ser feito, o jeito era parir com 37 semanas. Aqui estávamos em Natal, Réveillon, e nada de poder fazer nada pra pressão não subir. Consultas semanais para controlar tudo e mais um pouco. Ecografias semanais. Tudo ok, tirando a restrição de crescimento dela. Parou com 30 semanas, e dificilmente nasceria aquele bebê fofo que todo mundo sonha ter.
Ela era para 6 de fevereiro, mas minha médica pediu para escolher um dia na semana na semana de 37 semanas. Não seria mais prematuro, e ela estava considerando que tudo estaria nos conformes, acabei escolhendo 20 de janeiro. Ela conversou conosco, disse que meu caso não era impeditivo de parto normal, seria induzido, mas que era pra eu pensar na possibilidade. Conversamos eu e meu marido, optamos pelo parto normal induzido. Como estava fazendo ecografias semanais, dia 18 de janeiro fiz uma. Realmente, na fase que os bebês ganham 50 gramas por dia, a minha não tinha ganhado isto em 3 semanas. O percentil caiu, estava magrelinha, magrelinha. Dia 19 de janeiro eu tive consulta, levei o exame do dia anterior. A médica olhou, não gostou de nada daquilo. Ligou para o hospital para saber como estavam as vagas da UTI-NEO. Oiiii? Como assim, UTI!?!!!? Fez o exame de toque – estava com 2 dedos de dilatação. A monga que vos escreve estava já com contração e não sabia.
Eram 37 semanas, 2 dias, e lá fui eu dar entrada pela emergência para ter bebê. Saímos do consultório – no Lago sul – e fomos ao hospital – no Setor hospitalar sul. Neste meio tempo, avisa mãe, sogra, irmãos. Cheguei no hospital, apertei a senha da preferência (como fiz tantas vezes por causa do sangramento), e deu um medinho. Medinho de tudo. Na verdade, um medo horroroso, do desconhecido, de parir, da pressão, do sangramento, do tratamento. Voltou tudo naquela hora. Me controlei, porque o que não precisava naquela hora era perder o controle…. Burocracia resolvida, hora de dizer tchau a gravidez. Colocaram a bendita ocitocina no meu braço, isso era as 13h00. Acho que fui a única a ter parto normal no hospital naquela semana, ficaram duas enfermeiras fazendo exercício comigo, caminhando, molhando, musiquinha calma ao fundo. Sempre que vinha uma contração ela falava – OBA, MENOS UMA, TÁ CHEGANDO!!! E neste ritmo de “menos uma, tá chegando”, a bolsa arrebentou, liguei pro marido (workaholic que foi trabalhar enquanto eu estava em trabalho de parto) e pra médica, pra avisar que a bolsa arrebentou. Quando ela chegou, disse que colocaram mais ocitocina do que o prescrito, mas aí eu já estava na reta final. Meu marido foi fazer massagem na minha lombar, caminhar, a enfermeira passou tudo pra ele.
Perto das 19h00 descemos para o centro obstetrício. Me explica o que é ficar sentada em cadeira de rodas em trabalho de parto???? CADA coisa que inventam, porque é muito melhor caminhar do que ficar sentada…. mas às 19h15 nascia a minha filha. Daí pra frente, foi SÓ desespero. Não, o parto foi tranqüilo, embora tivessem três circulares no cordão. A pressão que estava alta despencou durante o trabalho de parto. Mas com todo o histórico bacana ali em cima da gravidez, só a vi por míseros segundos. A reserva da UTI-NEO ainda estava de pé. E a pessoa tem coragem de parir, mas não pergunta como está a filha. E o medo da resposta!?!?!? Perguntava se estava tudo bem com ela, “sim, ela é linda”!!!! Vontade de falar um palavrão, a pergunta NÃO foi respondida!!!!!
Passado o parto da placenta (que era minúscula), fui pra sala de recuperação. Pouco tempo depois veio…. Meu pacotinho lindo. 2155gr. 44cm. Um trisco. Mas era tuuuudo meu. Finalmente, no dia seguinte, pude dizer que estava com o tratamento realizado com sucesso – saindo com bebê no colo.
Gostaria muito de ter outros filhos. Mas acredito que dificilmente terei. Estou em tratamento por causa de um câncer de tireoide. A tireoide partiu há 3 meses. Até estabilizar hormônio, acompanhar, tudo, pelo menos 1 ano sem nem pensar em gravidez. Meu marido não quer mais filhos, afinal, já são três na conta dele. Mas adoraria que minha filha tivesse um irmão.
O tratamento em si é tranqüilo. Eu nunca fui de fantasiar, criar expectativas, a gente espera o melhor, realmente, mas também tem que pensar que nem sempre o melhor acontece. O alto custo do tratamento é dureza. Vendi meu carro na época para engravidar. Se não desse certo, confesso, não havia plano B. Não tinha outro carro para vender. O tratamento pra mim foi tranqüilo, mas a gravidez foi com muita emoção. Tem gente que não tem nada, eu tive muita coisa. Graças a Deus o tratamento deu certo. Dia 19 de maio de 2009 fiz a transferência dos embriões. Exatos 8 meses depois, 19 de janeiro de 2010, nasceu minha filha.”

8 thoughts on “Reprodução Assistida – Natasha

  1. Fiz minha primeira fiv com quase 40 anos, engravidei e acabei de perder meu bebe com 7 semanas, ler relatos assim ajuda a não desistir…

  2. muito linda sua historia emocionante mesmo gostaria de saber quanto pagou pelo seu tratamento e se vc pode escolher o sexo de sua bebê? obrigado boa sotre e muita saude para vc e sua pequena princesa.

    1. Ixi, paguei o tratamento já a 5 anos, os preços estao desatualizados! E, NÃO, não se pode escolher o sexo do bb não!

  3. Eu já conhecia a história, mas é só ler e os olhos se enchem de lágrimas.
    A minha Carolina tb teve restrição de crescimento, nasceu com 2890g e 45cm nas exatas 37 semanas, de cesárea porque encaixou pélvica. E eu tive a gravidez tranquila, exceto por um sangramento causado por descolamento de placenta bem no início da gravidez.
    Então não sei exatamente a causa da restrição de crescimento até hj 🙁

Comments are closed.