Carregando...

História da Maternidade (Parte 2)

(se você não leu a primeira parte, clique aqui)

A partir do Renascimento e do desenvolvimento das cidades no ocidente, uma nova concepção de mundo e de vida começou a se manifestar. No final do século XVIII os médicos passaram a se responsabilizar pelo nascimento dos bebês, e o papel da parteira passou a ser submisso ao do médico. Sendo assim, o momento do nascimento do bebê, que antes era em um cenário exclusivamente feminino, foi invadido pelo homem.

A família moderna que é amorosa, tem intimidade e privacidade, é uma construção do Estado e de especialistas. A partir dos séculos XVIII/XIX houve uma privatização da vida familiar, e isso pode ser percebido pela transformação arquitetônica das casas: mais paredes resultam em maior privacidade. Antes disso a consanguinidade nada tinha a ver com o sentimento de família.

Se antes do século XVIII/XIX a mulher era marginalizada e cumpria um papel inferior na sociedade, a partir da reforma higienista sua função tornou-se cuidar do filho, reconhecido como o futuro da pátria. Essa foi uma tentativa do Estado, aliado aos médicos, de civilizar as cidades, de formar cidadãos produtivos que garantissem o progresso do país. É nesse momento que a mulher passa a ser reconhecida como formadora de homens, e torna-se público-alvo de livros de caráter pedagógico – manuais que ensinavam a ser boa mãe e boa esposa. A entrada do discurso médico modificou as concepções de leitura feminina – se até esse momento as mulheres liam romances ou receitas, o lançamento de guias maternos incentivou a educação das mulheres.

Não podemos negar que a medicalização do ato do nascimento na sociedade ocidental permitiu a diminuição do risco de morbi-mortalidade da mulher e do bebê, mas a instituição hospitalar se ocupa primordialmente do corpo da mãe e do filho, privilegiando a saúde física de ambos. Durante muitos anos a mãe de um bebê prematuro raramente tinha contato com seu filho, e deveria contentar-se ao vê-lo através do vidro. Os estudos sobre os efeitos nocivos das separações precoces resultaram em uma mudança nas práticas nas maternidades.

A partir dos dois posts sobre a história da maternidade podemos compreender que não existe o que chamamos de instinto materno. Para uma mulher, tornar-se mãe pode ser uma tarefa fácil ou não. Isso pode ser surpresa para muitos, mas atualmente já sabemos que para a mãe e para a família o nascimento do bebê é um fato carregado de mudanças, e a forma como isso é vivido depende da história, da personalidade e sensibilidade do casal e de todos a sua volta. A maternidade é uma fase do desenvolvimento psicoafetivo da mulher, e vai para além do acontecimento biológico. Ou seja, aquela idéia de que é um sentimento puro, ideal, simples e sem conflitos, que aparece no imaginário coletivo não é verdadeira.  O amor maternal é ambivalente, ambíguo e complexo.

“O amor materno é apenas um sentimento humano. E como todo sentimento, é incerto, frágil e imperfeito. Contrariamente aos preconceitos, ele talvez não esteja profundamente inscrito na natureza feminina. Observando-se a evolução das atitudes maternas, constata-se que o interesse e a dedicação à criança se manifestam ou não se manifestam.” (BADINTER, 1985, p.21)

Gostou do post? Tem alguma dúvida, sugestão ou comentário? Deixe seu comentário abaixo!

*

Fontes:

BADINTER, E. Um amor conquistado. O mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

FREYRE, G. CasaGrande & Senzala. Editora Record, Rio de Janeiro, 1998.

Oiberman, A. La palabra en las maternidades: una aproximación a la psicología perinatal. Em: Psicología, Cultura y Sociedad – Ano 1, Número 1.

 

8 thoughts on “História da Maternidade (Parte 2)

  1. a maternidade é um tema mt complexo e pouco explorado. a iniciativa de falar sobre o assunto é bacana, Maria. eu nao conhecia esse outro lado da maternidade. nao sou mãe mas acho o assunto mt bacana.

  2. Parabéns Ciça,
    Estou adorando seu Blog.O assunto é muito interessante.Como sempre você continua brilhando em tudo o que faz!!!
    Muito sucesso é o que desejo para você ,nesta profissão maravilhosa que você escolheu, e abraçou com tanto amor!!!
    Beijos da tia Virginia.

  3. Cii, parabéns pelo blog! Estou amando os textos. É muito interessante ver esse outro lado da maternidade!
    Estou ansiosa pelos próximos posts.

    bjs

Comments are closed.