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Depressão Materna e a interação mãe-bebê

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As interações sociais são fatores que engendram o desenvolvimento do ser humano. Se pensarmos que as mães não-deprimidas tendem a ser mais responsivas ao seu bebê que as deprimidas, podemos sugerir que a interação mãe-bebê no contexto da depressão materna pode ser prejudicada. A saúde a mãe é fundamental para o bem-estar do bebê.

Alguns autores como Brazelton e Cramer (1992) sugeriram que a depressão materna pode ser considerada um dos mais frequentes fatores que afetam a interação mãe-bebê. Engana-se quem pensa que a interação da mãe deprimida caracteriza-se apenas pelo afastamento, falta de engajamento e pouca estimulação. Outra possibilidade é que a mãe deprimida apresente o oposto – comportamentos intrusivos e de superestimulação.

Stern (1997) observou que a mãe deprimida tende a romper o contato visual com o bebê, e não tenta restabelecê-lo. No entanto, ele percebeu que há evidências de que o bebê tenta fazer com que a mãe volte à vida, como um reanimador diante da mãe em sofrimento (e isso muitas vezes funciona!). Schwengber & Piccinini (2003) citaram alguns estudos que mostram que mães deprimidas gastam menos tempo olhando, tocando ou falando com seus bebês, em comparação às mães não-deprimidas. Os autores também apontaram que bebês de mães deprimidas exibem menos afeto positivo, menor nível de atividade, menos vocalização, mais expressões de raiva e tristeza, e até uma aparência depressiva, em comparação aos bebês de mães não-deprimidas.

É preciso ficar claro, no entanto, que embora esses estudos apontem para particularidades da interação da mãe deprimida com o bebê, não é regra que o filho de uma mulher com depressão também apresentará comportamento depressivo. Além disso, precisamos fazer distinção entre depressão transitória e prolongada no momento de avaliar o impacto da depressão materna na relação mãe-bebê.

“De qualquer modo, a criança não é considerada um recipiente passivo dos estímulos ambientais, mas, sim, um participante ativo na formação de suas trajetórias de desenvolvimento e nos efeitos dessas trajetórias.” (Schwengber & Piccinini, 2003, p.408)

É importante esclarecer que Depressão Pós-Parto e Psicose puerperal são quadros muito diferentes.”O início da psicose puerperal é precoce. Durante a primeira semana depois do parto, a mulher perde o contato com a realidade e começa a acreditar em coisas que não existem, a ouvir vozes, a ter a sensação de incorporações com entidades, delírios e crenças irracionais. Às vezes, imagina possuir superpoderes e pode lesar a criança não intencionalmente, mas porque acha que pode voar e atira-se pela janela com o bebê no colo. Essa doença muito grave é bem diferente da depressão. Felizmente, os casos de agressão intencional ao filho são bem pouco frequentes. O crime de infanticídio, previsto no Código Penal, ocorre em 4% das psicoses puerperais. A ligação mãe-filho é tão intensa que mesmo a mulher psicótica, sem contato com a realidade, em raríssimos casos mata a criança intencionalmente.” (Dr. Frederico Navas Demetrio)

É fato que muitos casos de depressão materna poderiam ser evitados a partir de uma avaliação precoce já durante a gestação. Assim, intervenções com o objetivo de apoiar a mulher nesse momento de transição poderiam ser feitas, minimizando os riscos da depressão materna para a mulher e também pro bebê. É possível pensarmos também em uma ação preventiva nesse período, evitando uma interação de padrão negativo entre mãe e bebê. O diagnóstico logo após o nascimento do bebê também representa um benefício na realização de intervenções pelos profissionais da área da saúde. É de suma importância que esses profissionais estejam atentos para a necessidade do diagnóstico e do tratamento da depressão materna.

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Como disse no post anterior, desejo esclarecer que a proposta do post é informar profissionais de saúde e familiares de gestantes sobre a importância do diagnóstico da depressão pós-parto pois, quanto mais cedo ele for feito, menor será o impacto para a mulher e para o bebê. O apoio familiar, social e terapêutico é essencial para que as mulheres depressivas exerçam sua função de protetora, e se recuperem mais rapidamente.
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Fontes:

Brazelton, T. B., & Cramer, B. G. (1992). As primeiras relações. São Paulo: Martins Fontes.

Schwengber, D.D.S. & Piccinini, C.A. O impacto da depressão pós-parto para a interação mãe-bebê. Estudos de Psicologia 2003, 8(3), 403-411.

Stern, D. N. (1997). A constelação da maternidade: o panorama da psicoterapia pais/bebê. Porto Alegre: Artes Médicas.

 

6 thoughts on “Depressão Materna e a interação mãe-bebê

  1. “Assim, intervenções com o objetivo de apoiar a mulher nesse momento de transição poderiam ser feitas, minimizando os riscos da depressão materna para a mulher e também pro bebê.” – Muito importante reforçar que não é culpa da mãe e que ela também corre riscos com a depressão e não somente o bebê. Parabéns pelo texto excelente.

  2. gostei do jeito q vc abordou o tema Dra Maria Cecilia. vc foi direta e objetiva, mas mencionou aspectos mt importantes. sucesso!

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