Carregando...

“Todas as coisas que eu esqueci” – por Heather Neal

Texto da Heather Neal, traduzido livremente por mim. Original em inglês aqui.

*
Tenho certeza de que o período de recém-nascido durou 863 anos.

Cada dia parecia um ano, e cada hora pareceu uma eternidade – a menos que o bebê estivesse dormindo, então essa hora durava basicamente um milésimo de segundo. Eu sentia que nunca iria superar o estágio em que minha vida girava em torno das necessidades de um recém-nascido, e que cada decisão que tomava tinha a ver com cuidar de outro ser humano.

Então, de repente, acordei um dia e estava tudo tão distante que eu não conseguia me lembrar de nada.

Eu tinha esquecido como foi fisicamente dolorosa a falta de sono; como ficava louca e irritada.

Eu esqueci da terrível azia que eu sentia por causa da amamentação, uma dor tão ruim que eu acordava no terror, encharcada de suor, convencida de que estava tendo um ataque cardíaco.

Eu esqueci como me sentia quando ficava longe do meu bebê por algumas horas e meus seios doíam – um lembrete constante de que eu era uma mãe agora.

Eu esqueci como era examinar cada rótulo de cada item que eu coloquei na minha boca, ou atormentar os garçons do restaurante para saber os ingredientes e métodos de preparação, pois eu não queria causar refluxo no meu filho.

Eu esqueci que me perdi no meio de tudo isso por algum tempo.

E também, eu esqueci o incrível senso de orgulho e realização que me dá balançar o bebê para dormir. Um feito tão difícil que eu tive que documentá-lo, caso isso não se repetisse. (Sério, o número de fotos que eu tenho do meu filho dormindo é ridículo.)

Eu esqueci o quão incrível cada coisa nova era:

“Olha, ele levantou o braço!”
“Oh! Ele ergueu sua cabeça!”
“Oh meu Deus, ele subiu em uma cadeira – teremos que ir para emergência o tempo todo.”

Eu tinha esquecido, também, o quão desesperada eu ficava para fazê-lo dormir, só para sentir falta dele minutos depois que ele caía no sono, mal podendo esperar para ele acordar novamente para que eu pudesse ver seus olhos azuis brilhantes e seu sorriso desdentado.

Esqueci-me de muita coisa em apenas três anos. Coisas que me consumiam na época, já se apagaram da memória.

Eu tenho pavor de quanto mais eu vou esquecer. A maneira fofa que ele chamava água de “mama” por tanto tempo, ou as coisas bobas que ele me diz enquanto dirigimos por aí. A maneira engraçada que ele explica as coisas ou o modo estranho em que ele bate sua testa contra a minha, em uma exibição estranha de afeto.

Como é que eu vou lembrar de todas essas coisas quando ele for adolescente ou adulto, ou no próximo ano? Eu nunca fiz um “livro do bebê”, pois pensava que essas coisas monumentais seriam marcos que eu nunca seria capaz de esquecer… mas eu só tenho um filho e ele tem apenas três anos, e eu não poderei dizer-lhe quantos anos ele tinha quando sorriu ou engatinhou pela primeira vez, ou quando disse sua primeira palavra. Pergunto-me quantas coisas mais eu vou esquecer.

Mas é claro que melhor do que lembrar é estar experimentando todas as novas descobertas e os momentos que estão por vir – que eu provavelmente vou esquecer também. Mas eu vou desfrutar de cada um, e sei que cada uma dessas memórias está envolvida, de alguma forma, em fazer do meu filho o que ele é hoje, e quem eu sou enquanto mãe.

O bebê de Heather
Kabes, o bebê