Laura Gutman foi entrevistada pelo blog Mamás Reales. Fiz uma tradução livre do post original, em espanhol. Vale a leitura!
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Se você está grávida ou é mãe, certamente em algum momento te falaram dela, te emprestaram ou te presentearam com um de seus tantos livros. Laura Gutman é seguida pelas mães como uma espécie de guru, ainda que ela negue esse título.
Ela tem mais de 10 livros escritos, baseados em sua experiência de mais de 30 anos de trabalho com pessoas, mães e não mães. Entre outras coisas, afirma que muitos dos problemas sociais que vivemos hoje - como a violência e a dificuldade de perceber as necessidades do outro - são produto da falta de maternagem, de uma conexão real entre mãe e bebê. Em seus livros e palestras, propõe que revisemos nossa própria história para se conectar com essas sombras, com nosso desamparo infantil, e a partir dessa consciência podermos nos relacionar com uma conexão real com nossos filhos.

Quando você começou a questionar temas sobre a maternidade?
Quando era pequena tinha uma conexão muito especial com qualquer bebê que passasse pela rua, a tal ponto que ao ver um bebê chorar, sentia e sabia o que estava acontecendo. O que não entendia era como a mãe não se dava conta, quando para mim era óbvio! Já adulta e mãe, comecei a traduzir a outras mães o que seus bebês sentiam. Eu percebi que tinha uma sabedoria sobre experiências muito sutis de qualquer criança e, de forma espontânea, eu sabia que aquelas mães que não entendiam seus filhos, quando crianças foram desamparadas. Esse foi o começo.
Depois começou a estudar com sua escola, e sistematizou o conteúdo?
Na Argentina, muitos anos depois, comecei a trabalhar tentando apoiar mães. Me dava conta que o que os bebês estavam passando era bastante parecido ao que elas haviam sentido em sua própria infância, ainda que essas mulheres não se recordassem disso. Fui colocando palavras e ordem no mundo emocional delas.
Então sua capacidade seria um pouco de empatia…
Eu acho que não era apenas uma questão de empatia. Sou uma pessoa muito racional, e tentei colocar as coisas em ordem, colocando palavras num território emocional confuso para mãe e seu filho. Aos poucos percebi que não era apenas um território das mães, mas de todos os seres humanos - homens ou mulheres, com ou sem filhos. Existe algo que todos compartilhamos: nascemos do ventre de uma mãe, chegamos ao mundo imaturos, com necessidade de amparo, proteção e conforto que não recebemos.
A partir disso que você diz que todos vivemos um desamparo infantil…
Sim. Isso explica porque somos as pessoas que somos, porque o mundo anda como anda, porque há tanta violência, caos, vícios, infelicidade, insatisfação. Hoje nós adultos não fazem espontaneamente o bem ao outro, porque estamos infantilmente machucados; sem nos dar conta, continuamos com altos níveis de necessidades, desespero e coisas que não foram satisfeitas. Hoje pedimos essas coisas, como se fôssemos crianças imaturas.
Você propõe que devemos reconstruir nossa biografia humana, revisando nossa infância. Em que isso se diferencia de uma terapia típica?
É absolutamente diferente. Ao longo dos anos fui inventando uma maneira, por tentativa e erro, de ir abordando o indivíduo a fim de chegar à realidade do que ele viveu quando criança. Para conseguir isso, não escutamos a pessoa, pelo contrário. Fazemos um trabalho de detetive. Buscamos algo da experiência infantil que o próprio indivíduo desconhece, não se recorda ou não sabe. Nos importa pouco o que ele diz, buscamos pistas em sua vida real e as conectamos com habilidades de detetive! Buscamos pistas onde parece que não há nada.
Você sempre diz que há um abismo entre o que vivemos realmente e o que recordamos que vivemos. Como se chega ao vivido se não é através da memória?
No livro “O poder do discurso materno” falo disso. As lembranças são organizações da consciência, e a consciência só recorda coisas que tenham sido organizadas e antes nomeadas. Como uma sopa de letrinhas, construímos frases e palavras para fazer sentido, e por isso podemos recordar. É a mesma coisa! A mim pode ter acontecido algo que, se ninguém nomeou para mim, não posso recordar. E o contrário também, pode não ter me acontecido nada, mas se minha mãe sempre me contou, eu organizo isso e o registro como uma lembrança real. Por isso as lembranças que temos da nossa infância não são nada confiáveis, tem muito do discurso materno.
Por que é tão difícil conectar-se com essa sombra e poder afirma que nossa mãe não foi capaz de conectar-se tanto conosco?
Sempre é necessário um outro para fazer; um profissional treinado que me ajude a ver isso. Além disso, as experiencias infantis estão muito ligadas ao que a mae disse, então é dificil reconhecer. “Mas por que minha mãe me contou outra coisa?”. Provavelmente porque ela organizou muitas interpretações que estão ligadas com o que a avó contou, que estão ligadas com o que a bisavó contou.
Por isso, quando alguém pensa ser um bom pai ou mãe, deve saber que não importa tanto o que faça com seu filho, se ele vai à melhor escola ou não, mas sim que, fundamentalmente, a criança precisa de adultos que estejam em uma busca permanente do seu verdadeiro eu. Uma mãe que interpreta a vida e afirma que “isto é bom, isto é mal, você é tal coisa”, não serve à criança. Porque ela vai ter uma referência falsa da realidade. Outra coisa é um adulto que questione a si mesmo, isso permite que a criança transite uma variedade de opções. Um adulto assim não impõe à criança uma visão de mundo, mas sim que vai estar disponível para ver a partir do olhar dessa criança que lhe pede que a acompanhe. São duas maneiras de seguir com a maternidade e a paternidade.
Com mais liberdade?
Sim e, sobretudo, permitindo um crescimento com plena consciência.
Como uma mãe pode treinar sua disponibilidade afetiva se não a teve enquanto criança?
Primeiro quero esclarecer que ser uma mãe trabalhadora não tem nada a ver com ter ou não disponibilidade afetiva. Se a mãe não tem disponibilidade afetiva, é pelo que passou quando foi criança. Nisso sou categórica, certamente ninguém tem um registro disso. Sempre fazemos o melhor que podemos, é claro. O que sugiro é que façamos o processo da Biografia Humana, porque é a maneira de compreender o que acontece comigo e de ver qual possibilidade real tenho de mudar algo sobre mim mesma, o mundo e meus filhos; é primeiro compreender quem sou, de onde venho, o que aconteceu comigo de verdade e quais coisas eu tive que fazer para sobreviver a isso. Espontaneamente fazemos o melhor possível, mas somente por vontade própria não posso mudar porque vou fazer o que sei fazer, que é o que tenho programado, pois foi a forma que me fez sobreviver ao meu nível de desamor.
Para mudar isso que trazemos programado, sugiro o método com o qual trabalho, a Biografia Humana, porque é um programa honesto. Buscamos a verdade do que há, retiramos as vendas para descobrir o que nos aconteceu. Não damos conselhos, não dizemos o que fazer, mas apostamos que cada indivíduo, ao observar seu própria realidade, decidirá o que fazer com esse conhecimento.
Por que acredita que as mães te seguem tanto?
Não sei. Nunca digo o que fazer, sou a anti-guru das mães, por isso nao entendo o que acontece. A verdade é que meus primeiros livros descrevem de maneira sensível as vivências de qualquer mãe de filhos pequenos. Aí há uma identificação, provavelmente. Nesse sentido há uma classificação, mas sempre falo do encontro com a própria sombra. Proponho revisarmos o que somos, uma investigação árdua e dolorosa de si mesma. Não importa se você é mãe ou não, se é avô ou avó, tio, casado ou solteiro. Todos temos alguém próximo para fazer o bem. É claro que as mães tem uma enorme responsabilidade para fazer o bem sobre uma criança pequena que depois se tornará um cidadão. Mas não é que as mães me importem mais. Eu falo o tempo todo da infância, coloco o foco na criança que fomos, não tanto na criança que está em casa, porque começar por aí é como começar no capítulo 85.
As conversas sobre educação e os encontros para mulheres grávidas sempre lotam. Você acredita que atualmente existe uma preocupação maior dos pais por maternidade e educar?
Sou um pouco pessimista a esse respeito. É ótimo ter a intenção, que as rodas de conversa lotem, mas vou mais a fundo. Creio que não seja um tema de boa vontade, mas de consciência, que são duas coisas que não tem nada a ver. A consciência vai mais além da vontade, é tomar uma consciência profunda sobre o meu ser essencial. Posso ter a vontade de criar bem e tentar com muita dedicação, mas não conseguir. Se uma mãe não tem consciência do nível de violência que viveu, e coloca muita dedicação porque diz que “ao meu filho não vai acontecer o mesmo,” é claro que seu território emocional tem muitas portas fechadas, e que ela não está emocionalmente aberta para sentir a partir do ponto de vista da criança. Porque ela não se conectou com sua mãe. Dificilmente a criança vai sentir sua mãe em seu território emocional.
Você acabou de publicar “Qué nos pasó cuando fuimos niños y qué hicimos con eso*”. O que você pode nos contar sobre esse trabalho? (*O que nos aconteceu quando éramos crianças e o que fizemos com isso - ainda indisponível em português)
É como uma continuação de “La biografía humana”. Abordo um tema um pouco mais complexo. Falo do que acontece com as crianças que tiveram mães cruéis ou desequilibradas. Vou explicando como se organizam os diferentes desequilíbrios emocionais nas pessoas, algo que é muito mais banal do que cremos. Englobo tudo, desde os transtornos obsessivos compulsivos, às paranóias, esquizofrenias, depressões, e os psicóticos. Abordo isso porque nenhuma criança nasce louca, e todo sofrimento da alma que temos ao longo da vida tiveram sua semente plantada em vivências infantis das quais não temos registro, geralmente. Então, faço uma explicação de como se organiza uma pessoa que precisa desequilibrar essas emoções para tolerar o que vive. Eu creio que essas doenças mentais são mecanismos inteligentes da consciência para sobreviver.
Você acredita na transformação do ser humano?
Claro, se não eu não trabalharia tanto. Mas a chave está em uma honesta e verdadeira indagação pessoal. Isso não é fazer qualquer terapia, mas sim organizar, de verdade, as peças da realidade que vivemos para entender o que tiver que fazer para sobreviver. Uma vez que alcançamos esse campo, então podemos fazer movimentos diferentes.
Original (em espanhol) por Carolina Anastasiadis
Laura Gutman estará presente no II Seminário Internacional de Mães. Utilizando o cupom maternidadenodiva10 você garante 10% de desconto!