Depoimento: Minha primeira experiência como fotógrafa da NILMDTS
jan 17
Há um tempinho falei sobre a organização Now I Lay Me Down to Sleep. Durante minha pesquisa para escrever aquele post encontrei o site da fotógrafa Aubrie dando seu depoimento sobre sua primeira experiência fornecendo seus serviços para famílias de bebês natimortos, ou que não vão sobreviver no hospital ou em casa. Entrei em contato com ela, e ela autorizou que eu traduzisse seu depoimento para que mais pessoas sejam tocadas por esse lindo projeto.

Aubrie (snaphappi_photography)
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Now I Lay Me Down to Sleep: Minha primeira experiência (27/08/2015)
Eu redigi esse post quando eu estava editando as duas sessões de fotografia que fiz como fotógrafa da Now I Lay Me Down to Sleep. Apesar de querer dividir como foi aquela experiência, demorou um tempo para eu conseguir compartilhar algo tão pessoal.
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Quando eu menciono essa parte da minha vida para as pessoas, todos respondem algo como “Como você faz isso?”. E às vezes eu também me pergunto como consegui fazer isso. Duas vezes, até agora.
Abrir a porta para conhecer a minha primeira família foi um dos momentos mais difíceis da minha vida, eu não vou negar. A porta era pesada, em todos os sentidos. Respirei fundo e espantei o medo - havia muito trabalho a fazer. Fui recebida com um silêncio, e um peso que não posso explicar. Era como se eu respirasse a dor deles. Me apertei no pequeno quarto do hospital, com cinco deles. Nunca vou me esquecer de suas lágrimas. Pesadas.
Então eu a vi, uma linda bebezinha. Tão pequena, de aparência tão frágil. Suas mãos, seus dedos tão pequenos, como minha unha do dedão. Eu continuo pensando em suas feições delicadas, e a calma de seu rosto. E quando eu a vi, eu podia sentir algo diferente, eu podia sentir amor. Literalmente. Eu sei que pode soar bobo, mas era palpável. Eu me acalmei, e comecei a me focar. Era meu trabalho eternizar esse momento para essa família, dar-lhes algo concreto para levarem dessa experiência, para que eles pudessem ver seu pequeno milagre - do começo ao fim dela.
Foi de partir o coração. E marcante. Mas eu tinha que encontrar a beleza. Como fotógrafa, esse é sempre meu trabalho. E fotografar para a NILMDTS não é diferente nesse sentido. O objetivo é o mesmo. Mas as apostas parecem muito maiores, porque realmente são. Então eu fiz o que todo fotógrafo faz: comecei o trabalho. Arrumei a luz, posicionei a família, posicionei a bebê, enquadrei as fotos. De vez em quando, eu afastava a câmera do meu olho e sussurrava: “podemos continuar?” E o pai acenava com a cabeça, tão sutilmente que eu mal podia notar. E eu continuava a fazer o meu trabalho.
Enquanto eu me perguntava como eu diria para eles que eu já tinha acabado, a mãe, segurando sua bebezinha no colo, bem perto de sua face disse “Sinto muito, não aguento. Não aguento mais”. Ela se afastou de mim, enquanto deixava sair toda sua emoção. O restante da família me agradeceu. Inclusive um menino com os olhos turvos, cerca de 12 ou 13 anos, com as bochechas coradas com lágrimas. Irmão dela. O pai apertou minha mão, eu disse “Sinto muito por tê-los conhecido dessa forma, cuidem-se”. E acabou.
Assim que fechei a porta, respirei muito fundo e fui para o elevador. Eu estava muito calma. Eu pensei que ficaria destruída assim que saísse de perto dos pais. Na minha cabeça, sempre me imaginei chorando. Muito. Eu sou muito chorona às vezes. Eu choro com comerciais de TV. Mas não havia lágrimas. Somente calma e um sentimento de alívio que eu poderia ir para casa. Apertei o botão do elevador, e ouvi passos atrás de mim. “Você pode esperar?” disse a enfermeira, enquanto me virava para ela. “Perdemos outro bebê… você pode ficar? Eu não quis dizer nada para família ainda, caso você não possa ficar.” Então, comecei a andar em direção à próxima porta pesada. Porque, como eu poderia dizer não?
Geralmente quando eu faço uma sessão de fotos, eu baixo as fotos pro computador empolgada, e olho para as fotos imediatamente. Mas não nessas duas sessões. Demorou dias para eu abrir as fotos. E não era exatamente medo do que eu iria ver, era medo de que não estivesse bom o suficiente. Eu quero que meus retratos honrem essas famílias, honrem suas perdas, que sejam tudo o que eles precisam que sejam. Mas no final, tudo o que posso fazer é tentar o meu melhor.Independente de quão bonitas e trágicas as fotos são, elas nunca serão boas o suficiente para mim. Eu sempre vou esperar mais delas, eu sempre vou querer que elas sejam tudo o que eu senti naqueles quartos, que elas tenham toda aquela beleza e amor. E eu sei que eu estou melhor porque me sinto assim.
Em janeiro, eu fui a um seminário onde Sandy Puc’, co-fundadora do NILMDTS, falou sobre sua jornada. Eu perguntei pra ela exatamente o que me perguntam: “como você consegue fazer isso?”. Sua resposta foi perfeita. Ela disse “como você pode não fazer?”. E aqui estou eu agora.
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Post original (em inglês) aqui


