História da Maternidade (Parte 2)
jun 10
(se você não leu a primeira parte, clique aqui)
A partir do Renascimento e do desenvolvimento das cidades no ocidente, uma nova concepção de mundo e de vida começou a se manifestar. No final do século XVIII os médicos passaram a se responsabilizar pelo nascimento dos bebês, e o papel da parteira passou a ser submisso ao do médico. Sendo assim, o momento do nascimento do bebê, que antes era em um cenário exclusivamente feminino, foi invadido pelo homem.
A família moderna que é amorosa, tem intimidade e privacidade, é uma construção do Estado e de especialistas. A partir dos séculos XVIII/XIX houve uma privatização da vida familiar, e isso pode ser percebido pela transformação arquitetônica das casas: mais paredes resultam em maior privacidade. Antes disso a consanguinidade nada tinha a ver com o sentimento de família.
Se antes do século XVIII/XIX a mulher era marginalizada e cumpria um papel inferior na sociedade, a partir da reforma higienista sua função tornou-se cuidar do filho, reconhecido como o futuro da pátria. Essa foi uma tentativa do Estado, aliado aos médicos, de civilizar as cidades, de formar cidadãos produtivos que garantissem o progresso do país. É nesse momento que a mulher passa a ser reconhecida como formadora de homens, e torna-se público-alvo de livros de caráter pedagógico - manuais que ensinavam a ser boa mãe e boa esposa. A entrada do discurso médico modificou as concepções de leitura feminina – se até esse momento as mulheres liam romances ou receitas, o lançamento de guias maternos incentivou a educação das mulheres.
Não podemos negar que a medicalização do ato do nascimento na sociedade ocidental permitiu a diminuição do risco de morbi-mortalidade da mulher e do bebê, mas a instituição hospitalar se ocupa primordialmente do corpo da mãe e do filho, privilegiando a saúde física de ambos. Durante muitos anos a mãe de um bebê prematuro raramente tinha contato com seu filho, e deveria contentar-se ao vê-lo através do vidro. Os estudos sobre os efeitos nocivos das separações precoces resultaram em uma mudança nas práticas nas maternidades.
A partir dos dois posts sobre a história da maternidade podemos compreender que não existe o que chamamos de instinto materno. Para uma mulher, tornar-se mãe pode ser uma tarefa fácil ou não. Isso pode ser surpresa para muitos, mas atualmente já sabemos que para a mãe e para a família o nascimento do bebê é um fato carregado de mudanças, e a forma como isso é vivido depende da história, da personalidade e sensibilidade do casal e de todos a sua volta. A maternidade é uma fase do desenvolvimento psicoafetivo da mulher, e vai para além do acontecimento biológico. Ou seja, aquela idéia de que é um sentimento puro, ideal, simples e sem conflitos, que aparece no imaginário coletivo não é verdadeira. O amor maternal é ambivalente, ambíguo e complexo.
“O amor materno é apenas um sentimento humano. E como todo sentimento, é incerto, frágil e imperfeito. Contrariamente aos preconceitos, ele talvez não esteja profundamente inscrito na natureza feminina. Observando-se a evolução das atitudes maternas, constata-se que o interesse e a dedicação à criança se manifestam ou não se manifestam.” (BADINTER, 1985, p.21)
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Fontes:
BADINTER, E. Um amor conquistado. O mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
FREYRE, G. Casa-Grande & Senzala. Editora Record, Rio de Janeiro, 1998.
Oiberman, A. La palabra en las maternidades: una aproximación a la psicología perinatal. Em: Psicología, Cultura y Sociedad - Ano 1, Número 1.









