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História da Maternidade (Parte 2)

jun 10

(se você não leu a primeira parte, clique aqui)

A partir do Renascimento e do desenvolvimento das cidades no ocidente, uma nova concepção de mundo e de vida começou a se manifestar. No final do século XVIII os médicos passaram a se responsabilizar pelo nascimento dos bebês, e o papel da parteira passou a ser submisso ao do médico. Sendo assim, o momento do nascimento do bebê, que antes era em um cenário exclusivamente feminino, foi invadido pelo homem.

(foto: Divulgação) Mostra Nossos Pequeninos no MP da USP

(Foto: Divulgação) Mostra Nossos Pequeninos - retratos de bebês entre 1860 e 1940, no MP da USP

A família moderna que é amorosa, tem intimidade e privacidade, é uma construção do Estado e de especialistas. A partir dos séculos XVIII/XIX houve uma privatização da vida familiar, e isso pode ser percebido pela transformação arquitetônica das casas: mais paredes resultam em maior privacidade. Antes disso a consanguinidade nada tinha a ver com o sentimento de família.

Se antes do século XVIII/XIX a mulher era marginalizada e cumpria um papel inferior na sociedade, a partir da reforma higienista sua função tornou-se cuidar do filho, reconhecido como o futuro da pátria. Essa foi uma tentativa do Estado, aliado aos médicos, de civilizar as cidades, de formar cidadãos produtivos que garantissem o progresso do país. É nesse momento que a mulher passa a ser reconhecida como formadora de homens, e torna-se público-alvo de livros de caráter pedagógico - manuais que ensinavam a ser boa mãe e boa esposa. A entrada do discurso médico modificou as concepções de leitura feminina – se até esse momento as mulheres liam romances ou receitas, o lançamento de guias maternos incentivou a educação das mulheres.

(Foto: Divulgação) Mostra Nossos Pequeninos - retratos de bebês entre 1860 e 1940, no MP da USP

(Foto: Divulgação) Mostra Nossos Pequeninos - retratos de bebês entre 1860 e 1940, no MP da USP

Não podemos negar que a medicalização do ato do nascimento na sociedade ocidental permitiu a diminuição do risco de morbi-mortalidade da mulher e do bebê, mas a instituição hospitalar se ocupa primordialmente do corpo da mãe e do filho, privilegiando a saúde física de ambos. Durante muitos anos a mãe de um bebê prematuro raramente tinha contato com seu filho, e deveria contentar-se ao vê-lo através do vidro. Os estudos sobre os efeitos nocivos das separações precoces resultaram em uma mudança nas práticas nas maternidades.

A partir dos dois posts sobre a história da maternidade podemos compreender que não existe o que chamamos de instinto materno. Para uma mulher, tornar-se mãe pode ser uma tarefa fácil ou não. Isso pode ser surpresa para muitos, mas atualmente já sabemos que para a mãe e para a família o nascimento do bebê é um fato carregado de mudanças, e a forma como isso é vivido depende da história, da personalidade e sensibilidade do casal e de todos a sua volta. A maternidade é uma fase do desenvolvimento psicoafetivo da mulher, e vai para além do acontecimento biológico. Ou seja, aquela idéia de que é um sentimento puro, ideal, simples e sem conflitos, que aparece no imaginário coletivo não é verdadeira. O amor maternal é ambivalente, ambíguo e complexo.

“O amor materno é apenas um sentimento humano. E como todo sentimento, é incerto, frágil e imperfeito. Contrariamente aos preconceitos, ele talvez não esteja profundamente inscrito na natureza feminina. Observando-se a evolução das atitudes maternas, constata-se que o interesse e a dedicação à criança se manifestam ou não se manifestam.” (BADINTER, 1985, p.21)

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Fontes:

BADINTER, E. Um amor conquistado. O mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

FREYRE, G. Casa-Grande & Senzala. Editora Record, Rio de Janeiro, 1998.

Oiberman, A. La palabra en las maternidades: una aproximación a la psicología perinatal. Em: Psicología, Cultura y Sociedad - Ano 1, Número 1.

 

História da Maternidade

jun 05

Considero importante começar o blog falando sobre como a maternidade e o nascimento foram vistos em diferentes épocas. Não podemos supor que desde sempre esses fenômenos, e seus impactos na vida feminina e familiar, foram vistos como são atualmente. Pretendo apresentar hoje a história do nascimento de um bebê desde a pré-história até o século XVIII.

Para falarmos sobre maternidade precisamos compreender como ela foi vista durante toda a História. As concepções sobre o nascimento de uma criança mudaram muito desde a pré-história até o século XXI. O conceito de família como conhecemos hoje é uma construção sociocultural, que se modifica de acordo com os contextos históricos.

Ilustração da obra de Rösslin, representando um parto de 1513

No antigo Egito, quando a gestante ia dar a luz, uma das parteiras rezava para a deusa Isis, para que ela reduzisse as dores do parto. Enquanto isso, outra mulher a sustentava quando as contrações aconteciam e outra massageava seu ventre! Quando o bebê já estava por nascer, uma parteira ajoelhada de frente à mãe, recebia o bebê e elegia seu nome de acordo com a posição dos astros no momento do nascimento. Na Grécia Antiga, diante dos primeiros sinais de trabalho de parto, as parteiras invocavam a deusa Ártemis, além de prepararem poções para auxiliarem o parto, e cantarem com as gestantes. Já na Roma Antiga as mulheres preparavam um óleo, a cadeira de parto e acompanhavam a parturiente. Diante desses exemplos podemos observar como as parteiras não ajudavam as gestantes apenas do ponto físico, mas também cumpriam um papel de dar suporte psicológico na situação em que a palavra divina tinha um lugar privilegiado. A parteira era a responsável por amparar a chegada do bebê.

Cena de parto numa xilogravura de Jost Amman em “De Conceptu et Generatione Hominis de Jakob Rueff” (1554) -
Philadelphia Museum of Art

Badinter (1980) analisou as práticas de criação nas cidades da Europa do século XVI ao XVIII. Nessa época havia uma tendência de enviar os recém-nascidos para o campo para ser cuidados por amas de leite. As mães eram separadas de seus filhos com dias de vida, e eles voltavam para a família biológica com cinco ou mais anos. Isso pode ser porque as tarefas maternas contradiziam com os deveres sociais da aristocracia; com a vida conjugal burguesa, já que mulher deveria compartilhar as tarefas do marido; e com o trabalho da empregada doméstica, pois era impossível educar os filhos e cumprir seu trabalho ao mesmo tempo. No entanto, era de conhecimento de todos que mais de 50% das crianças dadas às amas de leite morriam por causa das más condições de vida no campo e por negligência das mães de aluguel. Surge então a questão: por que essas mães aceitavam entregar seus filhos a uma morte quase certa? Sabendo que essa prática foi comum à maioria das mulheres urbanas de todas as classes sociais por mais de dois séculos, seria o instinto maternal tão universal e definitivo, como consideramos atualmente?

A resposta já está implícita acima: a valorização da figura materna tal como conhecemos nas sociedades modernas é um produto histórico.

A continuação dessa história e de como chegamos a maternidade como conhecemos hoje virá no próximo post. Fique de olho! :)

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Fontes:

Badinter, E. Um amor conquistado. O mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

Fuller, N. Identidad Femenina y Maternidad: Una relación incómoda. Boletín Virtual. El derecho al aborto es un derecho de las mujeres. 2005.

Oiberman, A. La palabra en las maternidades: una aproximación a la psicología perinatal. Em: Psicología, Cultura y Sociedad - Ano 1, Número 1.